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    Fraternidade estética

    Você já deve ter reparado em como o design escandinavo reserva uma similaridade com o design brasileiro dos anos 50 e 60. Fisicamente, os povos da Noruega, Suécia, Filnlândia e Dinamarca não guardam nenhuma identidade com o brasileiro. As temperaturas locais são negativas no inverno. Mas, no verão, em um dia muito quente, você pode precisar de abanadores para se refrescar de altíssimos 22 º centígrados.

    Se a nossa literatura é mais próxima da obra de angolanos e moçambicanos que da de nossos vizinhos latino-americanos, a explicação é óbvia: na literatura a consanguinidade se dá pela palavra, não pelo território.

    No caso dos escandinavos, há também boas explicações, embora de outros matizes. O arquiteto Gustavo Calazans esteve recentemente explorando a Escandinávia em suas férias. E que surpresa ao ver como o dinamarquês Hans Wegner e o brasileiro Sergio Rodrigues são tão assemelhados. “São muito parecidos”, diz, para enfatizar em seguida: “assustadoramente parecidos.”

    Não que o arquiteto desconhecesse essas paridades estéticas, ele apenas “não tinha olhado em profundidade”. Tanto ele sabe bem essa história que conta sobre as imensas quantidades de jacarandá – sim, a nossa madeira mais elegante, robusta e nobre – importadas pela Dinamarca.

    Por suas qualidades, como a dureza, o jacarandá permitiu desenhos leves, pernas delgadas, encostos sutis. “A questão técnica explica a forma parecida dos dois lados do Atlântico”, diz Gustavo, que viu os preços das peças de jacarandá alcançarem cifras astronômicas também por lá. Afinal, são raridades.

    Téo Vilela, dono da Loja Téo, também conhece de perto os países gelados que souberam curvar a madeira e fazer o mundo curvar-se diante de sua engenhosidade. “Arne Jacobsen e Alvar Aalto vergaram o compensado, inspirando nossos designers”, lembra Téo, conhecedor do assunto.

    São de Jacobsen as cadeiras Ant e a série C7, provavelmente a peça que contabiliza o maior número de vendas em todo o mundo. “Jorge Zalszupin, por exemplo, tem uma veia totalmente escandinava”, lembra Téo.

    A madeira prensada e vergada resultou em “curvas mais econômicas na Finlândia, um país muito austero em que o móvel cumpre a sua função de forma elegante”, diz Calazans. A Finlândia é o país de Alvar Aalto, que inspirou de Oscar Niemeyer a Joaquim Tenreiro. E, daí para a frente, tantos outros mestres da madeira bem talhada, que fizeram os móveis dos anos 50 e 60 se tornarem, no início do século 21, ícones que ultrapassaram nossas fronteiras. Calazans tem os números na cabeça, e se lembra do valor de uma Poltrona de Três Pés, de Joaquim Tenreiro, arrematada em um leilão por 300 mil reais.

    Para além da robustez do jacarandá e da madeira curvada, o que fez do bom desenho algo hoje tão glorificado? “O design escandinavo é atemporal”, diz Gustavo num xeque-mate. “Há um cansaço do olhar para certas coisas, mas não para esse traço”.

    Ingenuamente pergunto: “um cansaço como o que se dá quando olhamos para os móveis dos anos 80”? “Não”, ele responde rápido – e com uma lição: “É preciso ver cada peça despida do peso da nossa memória”.

    Do dinamarquês Hans Wegner (1914-2007), a Y-Chair, de 1950. Wegner desenhou mais de 500 cadeiras. Cem delas estão em linha de produção. No alto, a Cow Horn Chair, de 1952.

    Exemplo das curvas do arquiteto finlandês Alvar Aalto (1898-1976), a Paimio Chair é de 1931

    A Poltrona de Três Pés, de Joaquim Tenreiro (1906-1992), pode ter duas ou mais madeiras: jacarandá, roxinho, imbui, mogno e pau-marfim. Foi feita em 1964

    O desenho elegante de TenreiroDo carioca Sergio Rodrigues, a poltrona Mole, de 1957, voltou a ser editada, mas ainda é um hit nos antiquários

    Outra joia de Sergio Rodrigues: a Oscar. No alto, a Poltrona Mole, de 1957

    De Jorge Zalszupin, a Poltrona Dinamarquesa, de 1959

     

     

     

     

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